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Hoje recebi, na minha sala, a visita de um querido aluno. Tenho o acompanhado desde seu ingresso, há três anos, no curso de Relações Internacionais. Está agora no 4o ano, ano decisivo para os estudantes que estão se formando. É nesse momento que eles começam a fazer entrevistas, procurar emprego, enfim, buscam uma forma de se enquadrarem na sociedade do trabalho no Japão. Hiroyuki, ou Lee para os amigos, um rapaz de 24 anos, é um japonês diferente. Sempre se mostrou um rapaz polêmico, jovem pensante, com jeito de malandro, como ele mesmo se define. Joga capoeira, namora uma filipina, e adora subverter, ao seu modo, algumas regras sociais. Com ele aprendi muita coisa sobre o Japão, que mesmo com a pouca idade que tem, possui um olhar crítico sobre seu país. Falamos abertamente sobre máfia, imigrantes, tráfico de drogas, e alguns grupos sociais interessantes aqui no Japão...Ele me conta casos interessantes sobre assuntos que sempre se mostram um pouco obscuros para o olhar de quem está de fora. Adoramos conversar sobre polêmicas e ele, atento à minha curiosidade, não se poupa de me contar alguns sórdidos detalhes. Lee gosta de ouvir música brasileira, decora as letras e assim aperfeiçoa seu português, cada vez melhor, mesmo sem nunca ter ido ao Brasil. Pleiteou um emprego para trabalhar no consulado japonês em São Paulo, e talvez, por seu perfil rebelde , não foi selecionado para tal trabalho burocrático. Por outro lado, ele também, inquisidor, pergunta muito sobre o Brasil e sobre assuntos que permeiam a cabeça de jovens da sua idade. Hoje, depois das prolongadas férias nos reencontramos, nos abraçamos e demos beijinhos no rosto, o que pra muitos japoneses é um comportamento estranho, extremamente latino. É engraçada a reação de outros japoneses observando um japonês se comportar como um “não” japonês. Aperto de mão aqui é demais, imaginem beijinhos no rosto...enfim! Conversavamos sobre o seu futuro, pensa em ir pras Filipinas fazer intercâmbio por um ano, aproveitar pra ficar perto de sua namorada e ainda fazer uma graninha, ensinando japonês por lá. Garoto decidido. Às quintas-feiras na hora do almoço, como de costume, ele bate à minha porta para pedir uma xícara de café “pilão” brasileiro, fumar um cigarro na minha sala, já que é proibido fumar livremente na Universidade. Me pergunta sobre o grupo de reggae Cidade Negra, que ouviu na rádio japonesa e gostou. Por coincidência, tinha um CD na minha sala e ficamos entre uma faixa e outra conversando sobre essa coisa louca chamada futuro...Falar do futuro dele o fez lembrar de um problema que o Japão vem enfrentado ultimamente em relação aos jovens. Então, começou a falar de um programa de televisão que ele tinha visto, que tratava de um assunto que eu até então desconhecia. Tento, ao máximo, me inteirar das coisas do Japão, mas acabam escapando muitas coisas, muito em virtude pela limitação da língua, que não domino. Começou a relatar que o programa tratava sobre neet, que significa, not in employement, education or training . Um fenômeno que se dá entre os jovens japoneses que não querem nem trabalhar nem estudar. E a sociedade japonesa tem se mostrado preocupada com o aumento dos jovens nessa linha. Esses jovens, na sua maioria, vivem às custas dos pais, ficam o dia inteiro dentro de casa às voltas com mangás e games de computador. Não se interessam em se encaixar no quadro social de trabalho no Japão. Diferente de outro fenômeno bastante popular aqui, o dos “freeters” , que não buscam um emprego nas grandes companhias, apenas vivem de “bicos” , e mudam de serviços temporários quase que diariamente. Esses jovens – os neets - são geralmente, escondidos por sua família, pois ninguém quer admitir que possui um membro considerado desajustado. Eles, por opção, fazem parte do que aqui pode ser chamado de “limbo social juvenil” (seriam neets aqueles jovens que cometeram suicídio coletivo agendado pela internet?). Lee me contou que no programa foram entrevistados vários neets, entre eles uma garota, que perguntada o que sabia ou gostava de fazer, respondeu que sabia assoviar muito bem, sendo capaz de entoar uma melodia perfeitamente apenas com o sopro! Exposição do ridículo... Um outro rapaz entrevistado falou que sabia interpretar muito bem o que lia nos mangás, encarnando os personagens estapafúrdios lidos nas histórias em quadrinhos. Motivo de risos. Mas gente, olha só, os neets são artistas incompreendidos! Um outro entrevistado, de 24 anos, ao ser interpelado sobre porque não trabalhava, responde que quem trabalha é um perdedor, e quem não trabalha é um vencedor. Então, como ele não gostava de ser um perdedor, não trabalhava. Nossa, que visão futurista da sociedade! Vanguarda revolucionária, não é? É, alguma coisa está mudando no Japão. A idéia que se tem da sociedade “perfeita” japonesa cada vez mais está se anulando...Pois é, o país tem lá suas lacunas escondidas, e que devagar estão vindo à tona...De perfeito e da imagem perfeita que se cria, não tem nada. Os japoneses, criadores das máquinas perfeitas, da sociedade funcional, nada mais são do que meros mortais, como qualquer um de nós...
criado por fernandajp
23:42:29