Apesar dos próximos posts não obedecerem a uma ordem cronológica, vou começar a falar de ontem. Fui à Nagoya. Cidade relativamente próxima de Osaka, cerca de 2h30 de trem. Motivo: um show dos Rollings Stones. Junto com amigos que moram lá na região, fomos, motivados pela vontade de assistir a um show de bom rock’n in roll, pagamos 13.000 ienes (cerca de 120 dólares) num ingresso para ver de longe, muito longe, o quarteto fantástico. Já tinha assistido a um show deles no estádio do Pacaembu, em São Paulo, há longínquos dez anos. Gostei da experiência e resolvi repetí-la. Era a primeira vez que eu me aventurava num show de rock no Japão. Já tinha ido a shows de música brasileira, minha outra grande paixão. Caetano e Milton fizeram shows, com casas cheias de japoneses amantes da música brasileira. Mas voltando ao velho e bom rock in roll...o show aconteceu num local chamado Nagoya Dome. Imenso. Moderno. Logo que chegamos próximos à estação, percebemos as diversas figuras que já compartilhavam da mesma ansiedade ainda dentro do trem. Velhos, jovens, estrangeiros...pessoas de tudo quanto é tipo, realmente uma fauna diversificada. Gustavo, um amigoque não tinha ingresso, resolveu nos acompanhar até o Dome. Chegando próximos ao ginásio, percebemos a presença de cambistas, que com dinheiro e ingressos na mão, ofereciam aos passantes a sua oferta. Custo: os mesmos 13.000 ienes que pagamos. Engraçado. No Brasil, um ingresso assim, de última hora, pode custar até o dobro do preço. Ushi, outra amiga, falante do ninhongo, chega perto do cambista e começa a pechinchar. O japonês reluta, disse que não podia...ela oferece 10.000 mil, ele diz que não. Ela oferece 11.000, ele diz 12. No final, ele pergunta de que nacionalidade somos. Brasileiros. O cambista responde...ah, pensei que vocês fossem americanos, e solta um “amercajin kitanai”, que pode ser traduzido como “os americanos são sujos”. E depois, aceita a oferta dos 11.000 ainda dizendo que os brasileiros são gente boa... Era a primeira vez que eu via isso acontecer. Você pagar por um ingresso na hora, mais barato do que aquele que você compra antecipado! Entramos eufóricos. Revistas de malas, de bolsas, alertam que não podemos usar máquinas fotográficas (recomendações que ninguém respeita, uma subvsersãozinha divertida). O show começou com um pouco de atraso. Ficamos longe....muito longe, não fazíamos parte das pessoas que tinham cadeiras no gramado que chegaram a pagar cerca de 50.000 ienes para ver de perto o grupo. Foi uma diversão, digamos, interessante. Mais: morna. A idéia que eu tenho de shows de rock foram completamente modificadas aqui no Japão. Ordem, respeito pelo espaço do outro, pouco barulho. Queríamos ficar sentados juntos, e Gustavo se aventurou a sentar perto de nós, esperando o dono da cadeira chegar. Os japoneses chegavam, olhavam para a cadeira ocupada, olhavam de novo para o seu próprio bilhete, e saiam cabisbaixos, incapazes de falar com o rapaz sentado no lugar alheio...Japonês age assim. Tem que ter certeza de que está errado para poder reclamar (quando reclamam). Nos divertíamos com esse comportamento, tão estranho para os ocidentais de uma maneira em geral. Fico imaginando se fosse no Brasil. O brasileiro já falaria: esse lugar aí é meu...e poderia até ser iniciada uma briga. O japonês, mesmo estando com a razão, pede desculpas pelo incômodo...coisas culturamente avessas...interessantes...O show: sentia como se estivesse num video clip. Dei 7,5. Pela falta de bagunça, pela falta de calor humano. Nós ocupamos uma fileira inteire e dançávamos, solitários...diversão à japonesa. Depois de 2 horas de relógio de show (nem mais, nem menos), fomos à estação pegar trem. Show de rock respeita os horários dos trens, que funcionam até cerca da meia-noite, e é o meio de transporte mais utilizado por aqui. Lotada a estação, fizemos fila. Esse negócio de entrar na frente dos outros dentro do trem, não é de bom tom aqui. Ficamos atrás de dois adolescentes que também haviam estado no show, pois carregavam sacolas cheias de souvenirs: posters, camisetas. Os dois, ao nos ouvirem conversando em alto e animado português, alerta um ao outro”cuidado com as nossas coisas”. Sim, estavam com medo que nós, brasileiros, os roubassem. Carla, entende o que eles falam, e responde em japonês, ironicamente, que eles não precisam ter “medo” de nós...situação chata. Milhares de brasileiros vivem em Nagoya, acredito que seja a região que tem a 2a maior concetração de brasileiros no Japão, perdendo somente de Shizuoka. É tanto brasileiro que existem placas dentro do metrô em português e em alguns até existem avisos sonoros na língua. Há preconceito. Sim, os nikkeis brasileiros não são para os japoneses,“japoneses” reais, mas tem o direito de vir pra cá trabalhar. Vários são os problemas que envolvem a comunidade brasileira, que tem grande dificuldade de integração. Assunto que dá pano pra manga...Há um índice de criminalidade envolvendo a comunidade brasileira no Japão. A maioria são jovens que não se integram na “sociedade” e que acabam cometendo “pequenos delitos”. A polícia japonesa se preocupa tanto com isso que chegou a mandar policiais japoneses ao Brasil para fazerem cursos na nossa polícia tupiniquim para entender um pouco como funciona o “crime” no Brasil...Que ilusão! Deveriam olhar para eles mesmos e entender porque isso vem acontecendo aqui no Japão. Gostaria de falar um pouco mais, principalmente do porque esses jovens não se integram na sociedade. Não sou especialista nesse assunto por não pertencer à grande comunidade de nikkies que vêm ao Japão para trabalhar naquele tipo de serviço que o japonês não se dispõe. Mas sou observadora. E palpiteira. Gostaria de entender um pouco mais isso e debater, principalmente ouvindo a opinião dos próprios nikkeis sobre isso.