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Pois é, minha gente...Acabam-se aqui as narrativas e pataquadas de uma brasileira na Itália. Foram 24 dias, que voaram! Aqui, devo mencionar de que esta viagem contou com o encorajamento de Nicola, que insistia para que eu pegasse o avião e me ofereceu hospedagem enquanto estive na região de seu povoado, na Emilia Romana...coitado, nem imaginava que eu fosse acampar em sua casa por tanto tempo. Segundo um ditado italiano, depois de 3 dias o hóspede começa a feder...Imagina eu, que fiquei muuuuito mais do que singelos três dias...Mas tudo bem, até que eu ajudava a dar ordem na sua desorganizada casa e cozinhava ótimas receitas brasileiras por todo o tempo que lá estive...(brincadeirinha, rss). Obrigada, de coração, a me ajudar a conhecer a “puta Itália”, com suas aulas de história italiana, e por me apresentar muitas coisas que sozinha não poderia descobrir (como nomes da música italiana como Ligabue, Nomadi, e da literatura , Tiziano Terzani). Afinal, a vida não é só trabalhar, estudar, beber lambrusco e comer prosciutto crudo...é também compartilhar. Grazie per il tempo pieno, per le botte d’allegria, per la nostra fantasia...
Estive na Itália em época de pré-eleições: Berlusconi, tenta ser reeleito para o cargo de primeiro ministro, e seu adversário, Prodi, que já foi líder da comunidade européia. Falar de política com os italianos e como falar de futebol com os brasileiros. Se exaltam, xingam, ficam vermelhos...muitos italianos estão cansados da política feita pelo “homem da mídia sustentado pela máfia” Berlusconi. Mas vamos saber se esse é o desejo da maioria ainda essa semana...É realmente uma vergonha este país ser sustentado por uma figura tão grotesca...Andando na região norte da Itália também pressenti o forte movimento separatista, o Lega Nord. Partido de extrema direita, com inspirações totalitárias, acredita no progresso da Itália se esta separar o sul do norte do país... Essas faixas foram encontradas na região de Piacenza, já na Lombardia. Contra o casamento entre os homossexuais; contra a imigração ilegal; tendo como grande força a família tradicional católica...um tipo de TFP tupiniquim...tradição, família e propriedade.
Depois de Breschello, partimos a caminho de outros povoados. Nicola olhou no mapa e avistou um famoso povoado pela produção de um tipo de presunto cru muito refinado, o culatello. O culatello de Zibello é reconhecido como uma iguaria. Um quilo da peça do presunto pode custar cerca de 55 euros! Eu, fã incondicional de proschiutto crudo, queria experimentar nem que fosse uma fatia da iguaria. E lá fomos nós, já no limite da hora do almoço, procurar um restaurante aberto na cidade. Demos sore por avistar uma placa na estrada, chamando a atenção para “Trattoria La Buca”. Chegamos no restaurante, já quase 14h30 da tarde, horário um tanto esquisito para almoçar para os italianos. Mas aceitaram nos receber. Dona Miriam Leonardi que nos recebeu na entrada, é também a dona do restaurante. Mulher forte, vivos olhos azuis, corresponde ao estereótipo da típica “mamma italiana”. Falante, era orgulhosa da sua tratoria que tinha mais de um século, iniciado pela sua bisavó. Contou várias histórias sobre quem começou a fazer o culatello, os clientes do restaurante mais ilustres (entre eles o autor dos filmes Don Camillo e Pepponi, Giovaninni Bruschesi, e também um neto de um ex-presidente brasileiro que não conseguiu lembrar do nome).
Depois de comer o famoso presunto, apreciar uma taça de lambrusco e comer um “tortelli di zucca” (abóbora), feita por ela mesma (uma delícia), ela nos levou para conhecer onde guardava seus tesouros... Mais de 100 peças jaziam penduradas numa sala escura com cheiro forte de umidade e peças defumadas. D. Miriam, quando descobriu que eu vivia no Japão, falou que ela tinha sido entrevistada para uma revista japonesa e que até tinha virado personagem de Mangá! Que engraçado...Esse tipo de produção artesanal, está se perdendo. É cada vez mais raro ver restaurantes desse tipo (no Brasil então, nem se fala). Mas, de qualquer modo, a Itália ainda tem muitos tipos de cozinha artesanal que fabrica pizza (a verdadeira, como li em Napoli), o gelato artigiano, o queijo parmiggiano reggiano...exemplos de produtos típicos de uma Itália que ainda quer preservar sua cozinha tradicional e artesanal, mas que teme pela perda dessa cultura, pois cada vez mais os jovens se distanciam dessa tradição, por considerarem essa atividade, um “trabalho menor”...
De volta ao “piccolo paese” Massenzatico”, em Reggio Emilia, ficava contando os dias que me restavam (ai, que ansiedade)...queria ter ido à Cinque Terre, mas iria chover. Então, decidi, me acalmar e aproveitar um dia de folga de Nico para explorarmos juntos os pequenos povoados próximos. Foi um fim de viagem bonito! Nada de lugares cheios de turistas, nada de preços exorbitantes...é, viajar de carro é outra coisa, te permite explorar lugares que nem constam no mapa... Então, como tinha adorado o povoado, voltamos à Breschello, já na antevéspera de meu retorno ao Japão. Gostaríamos de entrar no Museu de Don Camillo e Peppone, que não foi possível na primeira vez que lá estivemos. Desta vez demos sorte de pegar o pequeno e simpático museu aberto, http://www.museodoncamilloepeppone.it/ , faltando apenas 20 minutos para fechar para o sagrado almoço e siesta. Conheci Patrícia, uma funcionária simpática do Museu, que me contou adorar Clarice Lispector! Fiquei bastante surpresa, pois afinal, Clarice não é tão fácil assim de “digerir”. E também fiquei muito orgulhosa em saber que não apenas lixo é traduzido (incluo aqui nessa categoria Paulo Coelho, que, não consigo compreender como é tão lido e divulgado no mundo inteiro!) Pra minha surpresa, a fabulosa e hermética Lispector tem várias obras traduzidas para o italiano! Que bom que existem outras coisas boas do Brasil que podem ser encontrados na Itália... pena que o público seja bastante reduzido... Aqui está a relação das obras traduzidas: DOVE SIETE STATI DI NOTTE?; Il MISTERO DEL CONIGLIO CHE SAPEVA PENSARE; PASSIONE SECONDO G. H.; L’ORA DELLA STELLA; LA PASSIONE DEL CORPO; ACQUA VIVA; UN APPRENDISTATO O IL LIBRO DEI PIACERI.