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Último dia no sul da Itália, maravilhada até então com região e o jeito de ser dos napolitanos. Apenas um incidente no último dia me deixou chateada. Precisava partir de Napoli muito cedo pra Reggio Emilia, disposta a chegar a tempo de ir às montanhas, visitar os Apeninos depois da neve que os atingiu. Para isso, tinha que pegar um dos primeiros trens e precisava sair do albergue cedo. Ainda escuro, numa segunda-feira, deixei o albergue. Ninguém na rua, a cidade ainda estava dormindo. Apenas um bar aberto e no caminho para o metrô, um homem me aborda perguntando as horas. Não respondo, dizendo que não falo italiano. O homem me convida para um café e eu insisto no “ scusi, io non parlo italiano”. Ele ainda continua tentando conversar comigo e consigo entender algumas coisas que ele falava, se eu era casada, se tinha filhos, onde morava, aonde ia, e eu continuava ignorando e indo em direção ao metro. Chegando na porta da estação, ele se despede com um ciao e eu entro no metrô totalmente vazio. Poxa, 6 horas e dez minutos e completamente vazio, sendo que num metrô em São Paulo é uma das horas mais cheias. Foi um erro meu não ter me informado o horário do primeiro trem, que mais tarde descobri ser apenas às 6h30. Depois de entrar na estação e me conformar em esperar, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com o estranho que havia me abordado na rua…resolveu entrar no metrô e me atormentar! Eu ali, sozinha, carregando não uma, mas duas mochilas, e ele me olhando daquele jeito como quem olha um pedaço de carne no açougue. Tentou continuar a conversa que nem havia começado, e eu andava de um lado para o outro, preocupada em estarmos somente nós dois ali... Puta cara insistente e chato! Fiquei com um vaffanculo preso na garganta, mas decidi ficar quieta, mesmo depois da sugestão do homem em praticar algo sexual comigo...Poxa, uma mulher sozinha tem que aturar cada coisa...fiquei, pela primeira vez com medo e fiquei pensando em tantas outras roubadas que nós mulheres somos submetidas apenas por estarmos viajando sozinhas. Êta mundo machista. A sensação de impotência é tão grande nessas horas, que não consegui ter nenhuma reação, apenas desejar que aparecesse viva’alma na estação. Finalmente duas pessoas chegaram, o que me fez sentir mais aliviada e motivar a desistência do atrevido napolitano de se aventurar com uma estrangeira cheia de malas no metrô.
Tomada pela emoção, um parêntesis necessário...Sou uma imigrante. Uma expatriada. Há 3 anos decidi deixar o Brasil devido a uma oportunidade única de trabalho no Japão. Abandonei emprego público garantido, e minha vida na grande São Paulo, cheia de amigos, família, etc. Talvez mais movida pelo espírito aventureiro e o desejo de conhecer novas culturas, arrisquei. Deixar para trás toda minha história, raízes e referências não foi fácil e logo foi superado pela minha chegada em um país que precisava decifrar para me integrar. Afinal, não podia deixar me levar pelas emoções que me tomavam, não podia me permitir a ter saudades e a sofrer pelo que tinha deixado, pois tinha sido minha escolha. Escolha da qual não me arrependo. Cheguei em Osaka em fins de março de 2003, início de primavera, cerejeiras no início de florescimento. O frio do Japão logo me fez lembrar que você deixou o país tropical, e o cinza do céu e dos prédios me chocou e me fez ficar de frente para aquela nova realidade. Nos 64 quilos permitidos pela companhia aérea trouxe um pouquinho do Brasil comigo. Livros, CDs, fotografias, café. Referências daquele que era o meu lugar. Era a primeira vez que eu saía do Brasil, e me sentia bastante assustada e curiosa ao chegar em um país completamente diverso. Tudo que eu via, sentia era uma novidade. Tinha graça. Conheci e me integrei rapidamente à comunidade de estrangeiros que também já estavam aqui para a mesma finalidade que a minha. Ensinar cultura, históra e língua de seu país, tarefa de grande prazer e responsabilidade. Na mesma época em que eu, chegou também uma moça portuguesa, que seria minha colega de trabalho. Mesma idade, mesma língua, claro que logo nos tornamos muito próximas. Saíamos juntas, frequentávamos aulas de japonês, nos divertíamos na medida do possível aqui no Japão, onde o sentido de divertimento é também muito diverso. Compartilhamos saudades, crises por estarmos fora dos nossos países e questionamentos diários referentes à difícil integração de um gaijin no Japão. Nos tornamos amigas inseparáveis, unha e carne. Gostosa e irremediável amizade. Onde uma ia, a outra ia também. Foram 3 anos assim. Hoje, dia 1 de abril, ela retornou à sua casa, à sua pátria. Eu fico por mais um ano. Estou triste pelo vazio causado pela sua partida, mas muito mais triste pela sensação estranha que nos dá quando percebemos que um ciclo se fechou, que as vidas seguem rumos diferentes, e que talvez nunca mais nos tornaremos a nos ver. Estranho e doloroso isso...conhecer pessoas, nos afeiçoar a elas e de repente perceber que não estão mais lá. Mas a vida segue, cada uma continua trilhando sua história. As lembranças ficam, e os amigos também, apesar da distância insistir em dizer que não. Nunca mais é uma palavra muito forte e muito definitiva. Despedi-me dela no aeroporto com um até breve...melhor assim. Gostaria de deixar minha declaração de amor e afeto a todos os meus amigos que ainda fazem parte da minha vida, mesmo à distância. Vou nomeá-los, pedindo antecipadamente perdão pelo esquecimento de alguns, pela emoção do momento: Odília, Nuno, Osmar, Ana Maria, Guto, Rita, Alessandra, Marcos, Lúcio, Cecília, Paulo, Carla, Renato, Aninha, Nicola...e etc!!! Amigos que, apesar dos milhares de quilômetros que nos separam, estão aqui.