Viajar na viagem

Relatos sobre experiências vividas por uma expat.

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Terra Blog

Arquivo de: Março 2006, 28

29.03.06

Sou brasileira sim, algum problema?

No outro dia, mais cinzento, fomos visitar monumentos tao cinzentos quanto o dia. As obras arquitetônicas herança do fascismo italiano de Mussolini. Visitar essa região de Roma, a EUR, que fica bem longe da Roma turística, fez com que eu e Wagner, fossemos tomado por uma espécie de golpe em nosso imaginário sobre Roma. Ver uma Roma cinza, com aqueles prédios imensos (complexo de superioridade?), que queria nada menos do que demonstrando a suposta grandiosidade do regime totalitário, me fez sentir oprimida, sufocada. Nao tinha nada a ver, e achava até bom que aquele lugar ficasse bastante afastado da belíssima Roma dos meus sonhos…

Esse dia cinza resultou também numa expêriencia um tanto quanto desagradável na biblioteca nacional de Roma. Disposta a pesquisar documentação sobre o Brasil na época em que esse recebeu muitos imigrantes italianos, fui recepcionada por uma mocinha, que trabalhava no guarda volumes da biblioteca. Perguntei, em inglês, como faria pra receber uma chave de um armário, e ela me respondeu que precisava de um documento meu. Saquei meu passaporte e a reação da moça, ao vislumbrar meu passaporte brasileiro foi dar uma risadinha irônica e falar, ahhhhh, brasiliana, com desdém, e me medir de cima a baixo. Perguntei pra ela se tinha algum problema e ela, percependo talvez sua conduta politicamente incorreta, tirou o sorriso malicioso dos lábios…fiquei muito chateada com a situação, e então pude perceber o que deve passar muitos imigrantes brasileiros em alguns países europeus, onde a imagem estereotipada de brasileiros vigora. Quem é o brasileiro imigrante? Imagens estereotipadas existem: prostitura, travesti, mulher que vai a Europa caçar maridos... Sim, infelizmente essa imagem existe sim! Fico triste em pensar que os estereótipos são cada vez mais alimentados por uma mídia extremamente parcial, que nos julga e cria conceitos sobre os brasileiros, generalizando comportamentos e opiniões. Em 2003 fui a Portugal, e lembro de uma reportagem que saiu na revista Visão sobre uma festa que os brasileiros adoram, e que estava começando a ficar famosa em Portugal! Qual era essa festa? A festa do cabide, onde você só entra na festa depois de se despir na entrada. Bem, sou brasileira, claro que já ouvi essa falar da festa do cabide, mas nunca participei de uma. E creio que muitos de vocês também não...A suposta liberdade sexual dos brasileiros (digo suposta pois sei que a sociedade brasileira é ainda bastante conservadora e machista) cria uma imagem totalmente errada de libertinagem, de liberação sexual. Sim, posso dizer que fui vítima de preconceito na biblioteca de Roma por essa moça, mas dentro da biblioteca fui bem tratada por um senhor que me atendeu com sorriso nos lábios e até arriscou um obrigado, e pela moça do xerox, que percependo eu ser stranieri, me ajudou a tirar cópias dos pesados volumes do início do século passado…mas ficou uma pergunta na minha cabeça: até que ponto as pessoas condicionam seu comportamento ao tomar conhecimento da nacionalidade do outro? E até que ponto nós, brasileiros, somos responsáveis pela imagem que se tem de nós? Fica aqui aberta a questão, disposta a debater.... Peço licença ao meu grande amigo Lúcio para colocar aqui uma frase de um email que ele me mandou ainda essa semana: Porque não somos apenas brasileiros ou humanos no planeta? Tenho duas amigas argentinas. Fiquei com elas vários dias. Falamos tanto de Buenos Aires que já me sinto um pouco portenho. Essas fronteiras que a burguesia criou só serviu para nos atormentar e nos deixar com a sensação de que alguma coisa ta fora da ordem”.  Realmente, tem muita coisa fora da ordem...

  • criado por  fernandajp criado por fernandajp
  • Postado em 02:18:08