Viajar na viagem

Relatos sobre experiências vividas por uma expat.

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Arquivo de: Março 2006, 26

27.03.06

Nostra lingua brasiliana

Esqueci de comentar. Uma das primeiras coisas que resolvi comprar na Itália, assim que cheguei, foi um dicionário de bolso. Fui numa livraria, e olhem só, achei um dicionário não da língua portuguesa, mas da língua brasileira! Agora temos o status de língua, independente da de Camões! Achei graça, mas na verdade todos sabemos das diferenças existentes entre as duas...para o italiano entender os brasileiros (aliás que são muitos na Itália), tiveram que adaptar, dar um jeitinho brasileiro na coisa... Custo: 10,50 euros. No verso do dicionário: " A língua brasileira contemporânea -  14 mil verbetes, indicações de pronúncia, exemplos e modos de falar, distinção entre o português e o brasileiro, palavras fundamentais para entender a cultura indígena e afrobrasileira". (Em italiano, para correções: Oltre 14.000 lemmi, indicazioni di pronuncia, esempi e modi di dire, distinzione fra portoghese e brasiliano, parole fundamentali per capire la cultura indigena e afrobrasiliana).

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  • Postado em 00:30:58

26.03.06

Milão e a fantástica visão dos Alpes

Milão

Trânsito, greve de metrô…isso me soa tão familiar…não estou no Brasil e sim em Milão! Problemas de grandes cidades? Problemas universais…

O milanês é um povo chic, que cultua  a moda fashion…me pareceu um pouco o povo paulistano, correndo apressado pelas ruas, coisa de cidade grande. Milão é uma cidade moderna, com monumentos grandiosos. Sua bela igreja, o Duomo de Milão, é uma coisa impressionate. É bonita sim (me perdoem os seus maiores rivais, os romanos), apesar de ter uma atmosfera muito mais fria, típica da região da Lombardia, norte da Itália. Maior presente que tive em Milão. A visão que se tem dos Alpes, dia lindo, céu claro, fui privilegiada pela visão espetacular...dizem que tal visão só é possível umas duas  ou três vezes por ano, no máximo...

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  • Postado em 23:25:45

Bologna vermelha e medieval

É engraçado como eu tinha uma visão totalmente diferente da Itália. Talvez por seu primeiro ministro ser um empresàrio a la Roberto Marinho, um dos homens mais ricos e poderosos, a presença de Berlusconi no poder me passava uma visão de uma Itália despolitizada, deixando enterrado o espírito revolucionário com os partigiani na época da 2° guerra. Fui realmente surpreendida por uma Itália que acreditava só existir na ficção ou nos relatos dos imigrantes que foram trabalhar nas lavouras de cafè nas fazendas paulistas. Desses imigrantes sabemos que contribuiram para a formação e organização de movimentos sindicais dentro do Brasil. Mas, claro que posso estar equivocada, pois a gente enxerga aquilo que queremos ver... E nessa atmosfera nostálgica de uma esquerda que não morreu, visitar Bolonha também foi uma experiência marcante…por quatro horas ininterruptas, andei pela cidade, indo sem direcao, ao sabor do meu instinto e vontade…Adorei caminhar por Bologna, e me deparar com sua imensa praça Maggiore, com a homenagem feita num imenso mural com as fotos dos partigiani mortos na resistência ... Sim, a Bologna é vermelha. Cidade das Universidades, por onde passaram grandes nomes e ainda passam (como Umberto Eco), o clima jovem e revolucionário me encantou.

Mas, tudo isso para manifestar que, passeando nessa cidade senti um momento de felicidade…a Bologna medieval, nostálgica, me proporcionou uma beleza única. Uma sensação de beleza diferente daquela que tive em Veneza. A cidade se move numa atmosfera totalmente medieval. Habitantes que mesmo caminhando apressados pelas ruas, respeitam o que a história lhes legou. Foi isso que me trouxe essa tal felicidade inexplicada. Ver nas pessoas o respeito por sua história, e que isso passa muito perto da noção de cidadania, de pertencimento a um lugar. Andar pelas ruas e nao ver monumentos depredados ou pixados, me traz uma especie de inveja e vergonha dos meus concidadãos. Infelizmente, o povo brasileiro parece não valorizar sua história como deveria, seus monumentos…sim, somos um país novo, mas com uma história digna de ser preservada, por mais triste e dolorosa que seja relembrar. Mas o senso de cidadania ainda é um aspecto que parece estar muito longe do brasileiro. Muitos nem sabem o que isso significa. Em São Paulo, os monumentos tem que ser monitorados costantemente dos atos de vandalismo…que país é esse que não se respeita? Roubos de obras de arte em igrejas para serem vendidas no mercado negro; fósseis comercializados na praça da República, como se fossem peças sem importância. Obras de arte em pracas públicas totalmente tomadas pelo descuido das autoridades…lembro disso e me dá muita tristeza…Mas é claro que não estou jogando a culpa somente naquele que age assim, mas da total falta de educacao no sentido literal da palava…tem que se aprender a valorizar a cultura, e não relegá-la a segundo plano, como se fosse uma coisa superficial e supérflua. Lembro, em meados de 2002, quando era professora da disciplina  de Museologia, num curso técnico de turismo. Como podia alunos desse curso nunca terem entrado num museu? Me prontifiquei e gastei muitos dos meus domingos para passear com esses alunos em alguns museus de São Paulo, numa necessidade de mostrar para eles a importância da memória para nós. Nós somos alheios a essa idéia de pertencimento a um lugar, a uma história. Como pode um estudante de turismo ver uma obra de Portinari, intitulada O Retirantes e nao fazer idéia do que está sendo retratado no quadro? E mesmo, que sentimento se tem um aluno ao visualizar um Segall sobre a vinda de imigrantes para o Brasil, em navios que mais lembravam os negreiros? Sim, em Bolonha senti alegria por ver a historia próxima, democratizada, não escondida.

Claro que nem tudo na Italia sao flores…ainda no trem, indo para Bolonha, presenciei uma cena muito familiar. Um adolescente pedindo dinheiro, com essas mensagens escritas em papéis fotocopiados, explicando porque motivo precisa de ajuda, seja ela a própria pobreza instaurada pelo desemprego que se tem notícia na Europa, ou seja pela falta dos pais…enfim…uma pobreza que nao é privilégio de países de terceiro mundo como o  Brasil. O que mais achei interessante foi observar o comportamento das pessoas e do jovem pedinte…as pessoas totalmente alheias, ignoravam a presença do rapaz, que numa rapidez  de causar inveja a qualquer velocista, deixou os papéis nos colos das pessoas e quando você menos esperava, ja vinha ele de volta, recolhendo os papéis e algumas poucas moedas. Como numa atitude automatica do “ pedir” , mas sem realmente olhar no seu rosto e realmente “ pedir” usando as palavras, a palavra escrita toma o lugar da palava proferida, e claro que perde sua força.  Ser ignorado ja faz parte do dia-a-dia desse que nao è nada mais do que um italiano a mais que pede, que faz parte da multidão daqueles que brigam por um lugar ao sol, por um espaço no trem, nas ruas, nas esquinas…

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  • Postado em 21:27:08

Don Camillo e Peppone

A Emilia Romagna é uma região interessante. A minha ignorância da geografia italiana vem sendo sanada pela explicação apaixonada que Nicola sente pela sua terra. Sinto nele orgulho de sua região, apesar sempre de seu olhar crítico sobre seu país.  A visita a pequenos povoados me fez sentir a verdadeira Itália, longe do circuito turístico…a vida que se move nos pequenos povoados, essa sim pode ser considerada a verdadeira Italia, não que a turística nao seja de verdade, mas, como oriundi de um pais turístico, sei que nas cidades mais procuradas pelos turistas , a imagem que se cria e que se vende está muito relacionada com essa necessidade de se mostrar um lugar atrativo, belo e interessante…A Itália turística tem estereótipos atrelados: a moda, aa pizza, a òpera e dos grandes monumentos a céu aberto. As particularidades de cada região, que por ser a primeira vez aqui não consigo capturar, pois pra mim tudo é novidade. Acredito que levaria meses ou até anos para eu poder sentir a vida de um picollo paese. Entre Corregio, Massenzático, Bagnolo in Piano, e outros agora que me fogem, fui parar em um com uma história bastante interessante: Brescello. Não se difere dos outros, nem consta em Lonely Planet. Mas, a cidade tem sua particulariade por ter sido palco de cinco filmes da década de 50, com suas personagens principais na figura de um padre e o prefeito comunista. Naturalmente dois arquiinimigos, Don Camillo (o padre, personagem do impagável Fernandel) e Peppone (o comunista), esse filme gerado num clima de Guerra Fria, mostra com suavidade as rivalidades políticas entre os dois. Essa ficção que fez tanto sucesso e ainda é lembrada por muitos italianos nos dá uma bela lição que parece estarmos esquecendo. Apesar das diferenças ideológicas, os dois homens mantém um pacto de convivência e não agressão, que pode ser vista até como uma amizade. Afinal, no mundo dos antagonismos, um precisa do outro para se legitimar.

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  • Postado em 21:12:21

Bella Ciao

Una mattina mi sono svegliato,
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
Una mattina mi sono svegliato,
E ho trovato l'invasor.

2. O partigiano portami via,
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
O partigiano portami via,
Che mi sento di morir.

3. E so io muoio da partigiano,
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
E so io muoio da partigiano,
Tu mi devi seppellir.
  4. Mi seppellisci lassù in montagna
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
Mi seppelisci lassù in montagna
Sotto l'ombra di un bel fior.

5. Tutte le genti che passeranno
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
Tutte le genti che passeranno
Mi diranno «che bel fior!».

6. E questo è il fiore del partigiano
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
E questo è il fiore del partigiano
Morto per la Liberta.

Itália vermelha

Conheci um partigiano! Emoção única, uma pena eu não falar a língua de Dante, para dar vasão a minha emoção. Amante do gelato, mesmo no inverno, como um bom italiano, conheci essa figura simpática, o senhor Sílvio, que tem por volta de mais de 70 anos de vida e história. Conta que, na região de Reggio Emilia, a atuação anti-fascista era muito forte, e ele participava da luta, fornecendo alimentos e suporte aos outros companheiros partigiani  - como seu próprio pai - que faziam a resistência ao avanço das tropas nazistas na Itália. Seu olhar emocionado e a sua fala vibrante sobre os acontecimentos que, apesar de passados sessanta anos, lembra de detalhes como se acabasse de presenciar. Orgulhoso de fazer parte dessa história, nos mostra um livro onde seu pai é lembrado, e onde aparece o nome dele próprio, como filho do importante partigiano. Sim, tem que se orgulhar de uma época onde as pessoas lutavam por aquilo que acreditavam valer a pena. Infelizmente, essa história pode se perder, pois a idade avançada desses agentes da história nos mostra de uma forma cruel que o fim se aproxima…e com ele, irão se soterrar as lembranças, a memória, que depois não passará de ficção. Eles gostam de falar, e nao sei como poderiamos de alguma forma homenagear esses personagens, registrando seus relatos para que nao sejam esquecidos…para sempre lembrarmos de que um dia existiram homens, verdadeiros heróis, que tentaram escrever uma história de justiça e bravura.

 Lembro de um relato de um japonês que sobreviveu ao bombardeio atomico em  Hiroshima, que me deixou muito triste e preocupada. O senhor de mais de 70 anos lembra que por muito tempo ele omitiu dos filhos ser ele próprio um sobrevivente da tragédia. Misto de medo, vergonha por todo o preconceito que se abateu sobre esse grupo de hibakushas, mas também, por uma sensação de que os próprios filhos nao tem interesse por essa história viva que ele é capaz de transmitir e relatar. Me dá muita tristeza, principalmente por perceber essa total falta de interesse das novas gerações em história, privilegiando aquilo que é efemero. Tratam a memória como um hard disk, passível de ser deletado a qualquer momento, pronto para seu espaço ser ocupado por outros interesses, outras histórias talvez mais bonitinhas.

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  • Postado em 11:02:57