Viajar na viagem

Relatos sobre experiências vividas por uma expat.

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Terra Blog

Arquivo de: Março 2006, 25

26.03.06

Mais Veneza...

 Mas, voltando à atmosfera de Veneza… as fantasias no estilo da nobreza medieval, com máscaras e trajes suntuosos, são uma espécie de marca registrada dos foliões. Muitos usam fantasias divertidas, originais e outros usam peças sem nenhuma preocupação de se parecer ridículo…aliás, no carnaval, tudo pode, tudo vale…”carne vale”.  Talvez esse carnaval seja o que mais se aproxima da sua real tradição. No Brasil, o carnaval tem significados diversos para muitos…o mais longo feriado brasileiro é alvo de invasão de turistas que buscam diversão, se embriagar e ainda se valer de uma suposta liberdade sexual dos foliões. A imagem extremamente sexualizada do carnaval brasileiro, exibida e exportada pela televisão por  vinhetas e super exposição constante de corpos esculturais conquistados a base de muitas horas de malhação em academias faz muitas vezes essa festa parecer uma espécie de homenagem a Baco, um verdadeiro bacanal tropical, que enlouquece os turistas mais afoitos e choca os mais conservadores. Mas, como festa fabricada, esse carnaval para inglês ver, na verdade para o brasileiro é totalmente diferente. O trabalhador vê o carnaval como forma de descansar, relaxar, poder estar alguns dias com amigos e família, fazer um churrasco na beira da praia e assistir ao desfile das escolas de samba pela rede globo…Carnaval não é como futebol, apesar de muitos ter na escola de samba sua única forma de escapar da opressão e da sua triste realidade…mas esse significado poético de pertencimento a uma entidade – sim, para os sambistas dos morros cariocas, as escolas de samba sao instituições, verdadeiras entidades – se limita ao seleto grupo dos moradores de uma comunidade que tem na escola de samba sua forma de comunhão com o mundo mais justo e democrático, onde por alguns instantes – os quarenta minutos de glória na avenida -  eles deixam de ser anônimos para se tornarem peças fundamentais do divertimento, da redenção.  Lembro muito da música de Tom Jobim, nesse momento: “a felicidade do pobre parece, a grande ilusão do carnaval…a gente trabalha, o ano inteiro, por um momento de sonho, pra fazer da fantasia de rei ou de pirata ou jardineira, e tudo se acabar na quarta feira…” Jobim nos mostra um carnaval real, por residir no sonho de muitos pobres que tem essa festa como seu momento único de alegria. Mas, a fantasia de rei, de pirata é realmente uma coisa que ficou lá atrás, estancada na memória de muitos. Tenho lembrancas lindas de carnavais na minha infância no interior de Minas Gerais…colocar máscara, roupa de princesa, jogar confete e serpentina e dançar as marchinhas de carnaval no salão, sob o olhar vigilante dos adultos para você nao tropeçar e não se machucar…realmente, um tempo que se passou, que nao volta…ficara guardado pra sempre na memória…Hoje o confete e a serpentina perderam seus lugares de acessorio fundamental do carnaval, e outros acessorios foram aparecendo, como os irritantes sprays de espuma ou mesmo as bexigas cheias de àgua que podem atingir o transeunte mais distraído.

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Veneza

Venezia

Acabado o encanto, comecamos a caminhar em direção a Veneza, segundo Nicola, a cidade de mentira…é engraçada essa percepção da cidade, como se ela mesma fosse um cenário hollywoodiano…se tem a impressao de um grande faz de conta, de tão estupidamente perfeita que a cidade se apresenta…falar da beleza de Veneza é ser piegas e faz meu comentário ser mais um a falar do que é óbvio. Sim, a minha percepção foi também essa, mas com um outro viés. Pensei: essa cidade realmente existe, não é de mentira, pois antes de conhecê-la pensava que ela fosse parte da ficção…Entaão, verdade e ficção se misturaram…eu, brasileira, vi que nao se tratava de ficção, o italiano vê a cidade como uma ficção.

Não sou historiadora da arte, e não precisa sê-lo para apreciar a cidade…claro que o céu azul faz a cidade parecer muito mais glamourosa… mesmo com o frio que deveria beirar o 0 grau,  Veneza recebe um mar de turistas de todas as línguas e nacionalidades, a trasformando numa torre de babel. Veneza, estupidamente bonita, chega a ser uma falta de respeito, como se ela fosse extremamente ousada em ser assim, acima de qualquer conceito ou definição do que é ser belo. A única coisa ruim desses lugares inundados (sem trocadilhos) são as intermináveis filas para se entrar nos lugares. Mas ver Veneza do alto, mesmo não tendo entrado na basílica de São Marco, foi um espetáculo a parte, apesar do tremendo frio que passamos lá em cima. Câmeras ansiosas lutavam por um lugar ao sol…registrar Veneza nas lentes dos àvidos turistas, capturar fragmentos da cidade maravilhosa, nos faz sentir um pouco donos e possuidores do produto exposto nesse shopping center cultural.

 Não posso deixar de relatar também que fiz o programma tipicamente turistico para quem vai a Veneza: percorrer a cidade numa gôndola. Os gondoleiros oferecem o passeio inesquecível por módicos 80 euros. Mas a pechincha existe no país de Maquiavel, e depois de relutar um pouco diante do meu desejo estuúido, e com medo de parecer piegas, confabulamos e resolvemos aceitar a oferta do gondoleiro que faria um desconto de 10 euros para nóss. E lá fomos nòs, contribuintes para a economia turistica italiana, sem tentar pensar nos 70 euros que, num momento de racionalidade me fez transformar o valor em reais, o que daria cerca de um sálario mínimo, um mês de muito lavoro de um trabalhador….mas esse sentimento de culpa, ou esse instante de racionalidade logo se foi, se esvaiu pela singularidade do momento. O que foi mais engraçado no passeio de gôndola  foi observar os outros turistas (será que tiveram crise na consciência em relação ao preço, como eu?) que riam a toa e saudavam os outros passageiros das diversas gôndolas…me deu uma sensação estranha, como se fizessemos parte de uma elite que nao se importava em dispor de valores para satisfazer um desejo frívolo, pequeno burguês. Mas uma coisa posso dizer: apesar do frio, da frivolidade, do sentimento de culpa devido a essa moral cristã enraizada, nada vai me tirar esse gostinho bobo por ter andado de gôndola, e alimentado uma espécie de fantasia nesse mês que fui turista na Itália. Coincidentemente com as minhas férias e para alimentar ainda mais essa fantasia, fomos parar na cidade no carnaval. Eu, como brasileira, fiquei feliz em  presenciar a atmosfera do carnaval italiano, tão diversa daquela que vimos no Brasil. Não posso aqui falar em Carnaval no Japão, não existe e muitos acham um absurdo 4 dias de feriado para curtir essa festa pagã.

 

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