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Verona:
Meu interesse pela Itália, claro que tem um fundo histórico e emocional. Quem nunca sonhou em visitar a Itália? Se você perguntar a dez pessoas, qual país gostaria de conhecer, acredito que chega a ser quase uma unanimidade. A Itália é conhecida mundialmente como um dos países onde a história realmente se respira e se vive…como historiadora, sentir assim, de perto a história, me dá uma espécie de sentimento ficcional, como se eu fosse uma personagem de Eco, em sua obra, seja ele um Baudolino, ou o monge de O nome da Rosa. Enfim, a Itália é a Itália e não necessita maiores comentários sobre sua óbvia beleza arquitetônica, sua história, sua aura românica e medieval. A caminho de Veneza, Verona foi uma bela surpresa, mas somente num primeiro momento. Viajar com um nativo tem dessas coisas…alimenta ou mata a fantasia que uma vez criamos sobre lugares, a partir da literatura, do cinema ou mesmo de fotografias que servem para atrair os turistas endinheirados. Sou também turista, ignorante das entrelinhas da história italiana, e tenho sido uma aluna voraz. Nicola me contou, assim que chegamos em Verona, que era uma das cidades mais racistas, conservadoras e preconceituosas de toda a Itália. Quase que diariamente temos notícias de atitudes que demonstram a intolerância, seja ela racial, étnica ou religiosa. Já havia sentido na pele uma espécie sutil de preconceito na Alemanha, e mesmo no Japão, onde salta aos olhos a diferença que minha tez morena acentua. Mas nada tão declarado a ponto de eu me sentir excluída ou extremamente incomodada…Claro que um certo incômodo acaba sendo gerado por me sentir observada, mas depois de tanto tempo fora do meu país, acabamos nos acostumando com essa especia de atitude invasiva.
Em Verona, a partir do alerta de Nicola, tentei ficar atenta, mas a quantidade de turistas não nos dá vasão a tal percepção da atmosfera. Mas, qual nao foi a minha surpresa quando, ao estacionarmos o carro e pegarmos um elevador, me deparar com um adesivo em vermelho escrito stop immigrazione. O contato com essa realidade me fez ficar atônita, chocada, pois o que mais me atordoa é que não se tem nenhuma espécie de vergonha de manifestar ideias racistas e xenófobas.
Como muitos europeus, o povo de Verona pensa que o problema de seu país está relacionado aos milhares de imigrantes que tentam de um forma, melhorar de vida em paises mais “ricos”. Os acontecimentos em Paris em meados de janeiro nos mostra que esse é um problema que a parte européia mais rica tem que tentar solucionar, sem afetar os princípios básicos da democracia. No país da liberdade, igualdade e fraternidade, o que se viu estava muito longe da declaração dos direitos humanos…
Caminhando ainda por Verona, agora ja longe do circuito turístico da atmosfera Shakesperiana de Romeu e Juilieta, entramos em becos e pequenas ruas do centro da cidade...Nicola me chama a atenção para um cartaz fixado em um poste que mais ou menos dizia que os homossexuais mereciam ser jogados na arena, junto com os leões...esse absurdo me faz refletir onde está todo o discurso de democracia e tolerância que mesmo em pleno seculo XXI parecem não existir...e ainda mais, parece que essa « liberdade » faz com que muitos não se envergonhem de seus ideais fascistas e conservadores. Liberdade de expressão e pensamento? Sàbio Eric Fromm, que temia a liberdade…
Chegada
Hoje faz uma semana que cheguei na Itália. Depois de um vôo de 12 horas, estafante, chego, stanchissima, a Milão. Logo ao chegar no aeroporto de Malpensa, desembarcar, passar pela imigração e responder ao oficial o que eu, uma brasileira, farei na Itália…pode parecer estranho, e realmente é, uma brasileira chegar na Itália pelo Japaã! A língua italiana tem suas similiaridades com o português, o que facilitou em alguns momentos minha compreensão de algumas coisas ainda no avião… Aliás, no avião tive o prazer e a coincidência de conhecer um japonês que também é professor da Kyoto Gaidai…é, realmente este mundo é um ovo…
Ao sair do aeroporto, precisava avisar a um amigo de minha chegada, que me aguardava e iria me hospedar. Procurei essas máquinas para comprar cartão telefônico e aí comecei a perceber que havia deixado a ilha da fantasia, o Japão…a máquina não funcionava, onde se lia “vende-se” cartões e passagens de trem, era apenas cartazes que uma vez serviram para essa finalidade.
O trânsito de Milão também me pareceu muito familiar…o comportamento ordenado que de alguma forma caracteriza alguns países europeus, nao se via na Itália…me senti em casa, familiarizada com o caos urbano…mas claro que ainda nada parecido ao caos que presenciei no Vietnã.
Para chegar em Massenzatico ainda faltava chão…pegar um trem na estacao de Milão ate Reggio Emilia para finalmente desembarcar no piccolo povoado que seria meu destino final. Seriam mais 1 hora e meia, o que somariam quase 15 horas de viagem…num misto de excitação e cansaço, finalmente chego em Reggio, com uma típica garoa que me fez mais ainda lembrar São Paulo, além de ser recepcionada por um italiano falante de um português “brasiliano paulistês”…que sensação engraçada! Viagens longas sempre me deixam atordoadas, ainda mais quando deixo um país tão sui generis como o Japao…
Quase sem dormir e acordando as 4 horas da manhã por causa da coisa maluca do jet lag, acordo numa Itália cinzenta, com neblina, porem nostálgica…a paisagem desse pequeno e simpático povoado me deixa uma sensação gostosa, de interior, de saudade de alguma coisa perdida…a paisagem rural me afeiçoa, me encanta e me inebria…
Finalmente, ainda no mesmo dia, fui para a Bahia…uma gelateria simpática que foi criada por dois amigos dispostos a começar uma vida nova fazendo um sorvete de qualidade. Esse nome tão tropical e com suas cores vibrantes é uma verdadeira manifestação do intercâmbio cultural. O sabor Bahia, mistura de abacaxi, coco e rum, dá um gostinho de Brasil...