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Depois de muita chuva, e teimando em ficar na região, apesar da chuva e dos alertas do meu “personal consultor metereológico”, combinamos com um pessoal do albergue a ir para Pompéia. Finalmente conheceria a Pompéia romana! Depois de pegar trem da linha circunvesiana, desembarcamos juntamente com uma americana e uma nova zelandesa, nas ruínas da antiga Pompéia. Fiquei surpresa pelo tamanho da cidade! A labiríntica Pompeii faz você se perder se você nao tem um mapa, que é dado assim que você chega ao local e paga cerca de 8 euros. Andamos cerca de duas horas, tempo ínfimo se pensarmos nas dimensões de uma cidade que na época que o Vesúvio a soterrou, era a morada de cerca de 15 mil pessoas. Não tenho palavras para explicar a sensação de visitar um local que é história pura! Uma pena o tempo estar ruim, fazia um frio de entrar nos ossos, e teimava em cair uma chuvinha chata, que nos fez apertar o passo...até os diversos cachorros que escolheram o local como morada, se asilavam sob qualquer pedaço de abrigo coberto para fugir do frio.... Enfim, para correr da chuva e do imenso frio da região, decidimos pegar o trem e ir para Sorrento, e posteriormente para a paradisíaca Costa Amalfitana (me lembro sempre da Zizi Possi, cantando Torna a Sorrento), região junto ao mar. Fui alertada por Nicola em prestar atenção nos arredores do lugar, a caminho de Sorrento, que era dominada pela Camorra, a máfia napolitana. Fui, como um criança curiosa, durante todo o percurso, olhando cuidadosamente a paisagem na esperança de ver os “mafiosos”. Tentei prestar atenção nas pessoas dentro do trem, mas fiquei um pouco intimidada com o olhar invasivo dos napolitanos. Era melhor nao encarar muito… Chegamos em Sorrento, pra variar na hora da siesta, onde o único lugar (bar-tabacaria) que poderia vender bilhete de ônibus para a costa amalfitana estava fechado. Hora da siesta e ainda por cima domingo! Impossível achar um lugar aberto. Mas mesmo assim, entramos no ônibus para a costa, dispostos a fazer um bate e volta, apenas para apreciar a paisagem tao falada por todos (um napolitano a descreveu como a “piu bella del mondo”) . Ansiosa dentro do ônibus, e com a chance de levar uma multa por ter um bilhete que não sabia se valeria, somada à calma do motorista e o atraso de meia hora na partida despertou em mim uma sensacao de tempo perdido, pois tinha certeza de que com a proximidade do fim da tarde não veria nada… Mas demos sorte! A costa amalfitana é um lugar magnífico, na minha opinião, uma das paisagens mais belas vista até então! Realmente o napolitano pode encher a boca e se orgulhar dessa costa ! Outro lugar que parece de mentira…As cidades, que sao mais povoados do que cidades, com suas casas brancas e construídas nas montanhas, verticalizando o acesso. Para andar em Positano tem que ter boas pernas para encarar os degraus. Imperdível!
Viajar de trem foi um hábito corrente aqui na Itália. Nos meios de transporte nos deparamos com as pessoas mais diversas. Gosto de ficar olhando para as pessoas ao meu redor e ficar imaginando o que cada um está pensando, se esta indo ao trabalho, se esta indo se divertir, se tem alguém esperando…os trens aqui na Itália faz com que você fique de frente para a outra pessoa, ficando quase que obrigatório o encontro de olhares, e o inevitável desvio súbito para a paisagem na janela ou para o chão ou teto do trem...
Partindo de Roma para me dirigir a Nápoli a bordo do Eurostar (não tem nada a ver com o trem bala japonês, apesar de ser um dos mais rápidos), uma senhora entra numa estação já muito próxima de Napolis e começa a percorrer as fileiras de passageiros pedindo dinheiro, com aquela máscara que a condição impõe: cara de piedade, implorando por comida ou dinheiro, migalhas bem vindas do bolso de qualquer bom cristão…esse discurso ja pra lá de desgastado se tornou corrente nos países subdesenvolvidos e me espantou ver esses pedintes de trens aqui na Italia. Enfim, a senhora pedia com aquele olhar calejado pela miséria. Atrás dela ia uma criança de uns 6 anos, reforçando o discurso da mulher que deveria ser sua mãe, com um olhar tão fabricado que me deu vontade de rir (porque sabemos reconhecer um olhar daquele que realmente está sendo sincero, e daquele que está treinado a fazer isso). Obrigar uma criança a fazer isso deveria ser passível de prisão! Enfim, a mulher com sua voz chorosa foi interrompida por um senhor italiano de uns 70 anos, que aparentava ser muito simples, com o rosto calejado pelo tempo, que clamou: “quer comida? Vai trabalhar! Eu trabalhei a minha vida inteira e nunca faltou comida na minha mesa.” Depois de ouvir o senhor, a mulher agradeceu, e mais que depressa se dirigiu para o próximo vagão, pois percebeu que naquele ninguém iria colaborar com sua causa.
Eu e meu amigo chegamos na estação Piazza Garibaldi em Napoli e depois de fazer as devidas baldeações de trem e metrô, desembarcamos na Piazza Dante, região próxima ao centro comercial e histórico da cidade, onde se localizava o albergue que iríamos nos hospedar. Gosto da sensação de sair do metrô e ver a luz do sol se aproximar, mas o que vi foi uma Napoli cinzenta, com gotas de chuva. Que pena! Mas outro movimento na cidade me chamou muita atenção. A cidade era um burburinho só, cheia de vida, de caos, com um magnetismo inigualável. Napoli pulsa! O barulho de buzina emitido pelas motocicletas e carros que andam frenéticos pelas ruas da cidade faz você entender porque o sul da Itália eh tão diferente do norte. As pessoas são diferentes, se comportam diferente e falam outra língua! Tudo isso num mesmo país! As pessoas do sul são mais cordiais do que as do norte, adoram guiar e orientar os turistas perdidos. Muitos napolitanos trabalham no “serviço informal”, principalmente na região perto do porto…feia e suja, como qualquer centro. La estão eles, os vendedores informais que se postam na sua frente e de repente abrem uma mala e te oferecem um computador a preço de banana…Eles sabem identificar o estrangeiro nao sei como…talvez esse olhar de bobo e estupefação que temos, sei lá, mas lá vem eles, frenéticos, falando em inglês, francês ou espanhol, dispostos a chamar sua atenção. Nos esquivamos rapidamente, e fomos rapidamente tentar ver, apesar do tempo ruim, o famoso e soberano Vesuvio. Uma pena a visão nao ser tão clara quanto gostaria, mas deu pra sentir a grandiosidade do vulcão. A baia de Napoli é linda, mesmo sem o céu azul. Então, o que fazer em Napoli em dia de chuva? Achei interessante uma indicação do Lonely Planet de uma rua que era cheia de artesãos onde se podia ver seus trabalhos cuidadosos expostos, e se desse sorte, poderia ate ver algum trabalhando. Seguindo as indicações do guia, resolvi visitar um Hospital de Bonecas, que parecia ser interessante averiguar o trabalho manual dos artesãos napolitanos e fugir dessa coisa turística, apesar de estar no guia. Mas, infelizmente estava fechado. Poxa, essa hora da siesta na Itália me deixava muitas vezes furiosa! Acabei nao conhecendo o hospital, e fui então comer a famosa pizza napolitana, invenção local por meros 3 euros, com tamanho de dar vergonha por comer sozinha. Wagner, meu amigo que me acompanhava também em Roma tinha um interesse devido a sua pesquisa em filmes italianos da época do fascismo. Acabamos por acaso em uma loja de um senhor muito simpatico que recuperava filmes em video, e passava-os para DVD. A loja dele era só fita de vídeo, com prateleiras imensas cheias de filmes...Arrisquei perguntar se existia algum filme brasileiro por ali, e o senhor, mais que depressa respondeu: sim, tem sim...um chamado Guantanamera. Eu achei estranho, por saber que esse filme era tudo, menos brasileiro. Ele achou o filme e me mostrou...”é esse aqui”, disse, me mostrando...Eu falei que aquele filme não era brasileiro, e sim cubano...(que aliás eu já tinha visto e por sinal é ótimo!) Ah....infelizmente o nosso ótimo cinema ainda não é produto de exportação...
No outro dia, mais cinzento, fomos visitar monumentos tao cinzentos quanto o dia. As obras arquitetônicas herança do fascismo italiano de Mussolini. Visitar essa região de Roma, a EUR, que fica bem longe da Roma turística, fez com que eu e Wagner, fossemos tomado por uma espécie de golpe em nosso imaginário sobre Roma. Ver uma Roma cinza, com aqueles prédios imensos (complexo de superioridade?), que queria nada menos do que demonstrando a suposta grandiosidade do regime totalitário, me fez sentir oprimida, sufocada. Nao tinha nada a ver, e achava até bom que aquele lugar ficasse bastante afastado da belíssima Roma dos meus sonhos…
Esse dia cinza resultou também numa expêriencia um tanto quanto desagradável na biblioteca nacional de Roma. Disposta a pesquisar documentação sobre o Brasil na época em que esse recebeu muitos imigrantes italianos, fui recepcionada por uma mocinha, que trabalhava no guarda volumes da biblioteca. Perguntei, em inglês, como faria pra receber uma chave de um armário, e ela me respondeu que precisava de um documento meu. Saquei meu passaporte e a reação da moça, ao vislumbrar meu passaporte brasileiro foi dar uma risadinha irônica e falar, ahhhhh, brasiliana, com desdém, e me medir de cima a baixo. Perguntei pra ela se tinha algum problema e ela, percependo talvez sua conduta politicamente incorreta, tirou o sorriso malicioso dos lábios…fiquei muito chateada com a situação, e então pude perceber o que deve passar muitos imigrantes brasileiros em alguns países europeus, onde a imagem estereotipada de brasileiros vigora. Quem é o brasileiro imigrante? Imagens estereotipadas existem: prostitura, travesti, mulher que vai a Europa caçar maridos... Sim, infelizmente essa imagem existe sim! Fico triste em pensar que os estereótipos são cada vez mais alimentados por uma mídia extremamente parcial, que nos julga e cria conceitos sobre os brasileiros, generalizando comportamentos e opiniões. Em 2003 fui a Portugal, e lembro de uma reportagem que saiu na revista Visão sobre uma festa que os brasileiros adoram, e que estava começando a ficar famosa em Portugal! Qual era essa festa? A festa do cabide, onde você só entra na festa depois de se despir na entrada. Bem, sou brasileira, claro que já ouvi essa falar da festa do cabide, mas nunca participei de uma. E creio que muitos de vocês também não...A suposta liberdade sexual dos brasileiros (digo suposta pois sei que a sociedade brasileira é ainda bastante conservadora e machista) cria uma imagem totalmente errada de libertinagem, de liberação sexual. Sim, posso dizer que fui vítima de preconceito na biblioteca de Roma por essa moça, mas dentro da biblioteca fui bem tratada por um senhor que me atendeu com sorriso nos lábios e até arriscou um obrigado, e pela moça do xerox, que percependo eu ser stranieri, me ajudou a tirar cópias dos pesados volumes do início do século passado…mas ficou uma pergunta na minha cabeça: até que ponto as pessoas condicionam seu comportamento ao tomar conhecimento da nacionalidade do outro? E até que ponto nós, brasileiros, somos responsáveis pela imagem que se tem de nós? Fica aqui aberta a questão, disposta a debater.... Peço licença ao meu grande amigo Lúcio para colocar aqui uma frase de um email que ele me mandou ainda essa semana: “Porque não somos apenas brasileiros ou humanos no planeta? Tenho duas amigas argentinas. Fiquei com elas vários dias. Falamos tanto de Buenos Aires que já me sinto um pouco portenho. Essas fronteiras que a burguesia criou só serviu para nos atormentar e nos deixar com a sensação de que alguma coisa ta fora da ordem”. Realmente, tem muita coisa fora da ordem...
Em cada lugar que viajo, tenho também um local que faz parte do roteiro obrigatório: uma livraria. Sou uma apaixonada compulsiva por livros, gosto do cheiro que eles têm, gosto de manuseá-los, sentí-los. Livro novo ou usado, reconheço a insanidade que sou capaz de fazer quando caio de amores por um exemplar...Tenho tantos livros que nem sei se há tempo disponível para lê-los todos...Gosto de entrar na livraria, ver como são expostos os livros, observar as pessoas que frequentam esse universo, conversar com o livreiro que sempre tem uma boa dica ou uma boa história pra contar...falo isso porque já trabalhei em livraria, e tenho um sonho um tanto quanto quixotesco de ter uma um dia...Já pensei em tratar com terapia essa minha maluca compulsão, que acaba me dando uma baita ansiedade...chego a ler vários livros ao mesmo tempo, releio alguns, escrevo neles, dobro, deixo minha marca... Em agosto do ano passado eu mesma acabei lançando um livro (olha a propaganda...rs), e espero ainda lançar outros...democratizar o conhecimento, difundir a cultura!
Percebi que os italianos são grande leitores, devido à quantidade de livrarias que esbarrava pelo caminho. E sempre cheias! Fico louca dentro de uma livraria, e para sorte do meu bolso, não entendo italiano. Os italianos gostam muito de humor. Seja ele político, besteirol, ou sexual, há uma sessão onde você encontra somente livros humorísticos. Acho que a sociedade que ri de si mesma consegue assim, de uma maneira mais fácil, lidar com seus problemas...Pois é...é melhor ser alegre que ser triste...
O Coliseu pertence ao imáginario de todos, interessante resquício de um passado remoto. Mas o que mais me deixou sem fôlego foi vislumbrar as ruínas do Forum Romano, o que foi uma vez o centro de maior importância do imperio romano. É uma sensação muito louca vislumbrar os resquícios de uma história milenar, tão perto dos nossos olhos…Quando passei por lá, ficava imaginando que tipo de pessoas passaram por lá, o que faziam, o que pensavam...Como era a noção de memória que eles tinham? Fico pensando o que o a era dos extremos, o século XX deixou e o que o XXI deixará como legado histórico. Lembranças de guerras, doenças... é, a história que se repete...Acho engraçado em pensar em aparatos e utensílios que fizeram parte de minha vida e que hoje são dignos de peça de museu: máquina de escrever, câmera com filme, toca discos, telefone de discar, etc…símbolos de uma sociedade, que marcaram sua época. O Fórum Romano me reforçou ainda mais minha paixão pela História...